Clique, estalo ou chama

Muito tarde percebi que gastava tempo demais dormindo. Logo o dia acabava e eu não tinha feito nada do que tinha planejado. E eu planejo o tempo todo, minha cabeça não para, não consigo me desligar. Sou um pouco metódica. Faço listas o tempo todo. Supermercado, tarefas do dia, leituras por fazer, filmes a ver… Certo dia eu tive um clique. Aqueles que a gente tem de vez em quando, que faz martelar a cabeça e pensar “o que eu estava fazendo esse tempo todo que não vi isso?” Abandonei os remédios controlados, resolvi levantar cedo todos os dias e admirar cada mínima paisagem que vejo por onde passo. Ainda tenho meus ataques de nervos. Descobri não tão tarde que não preciso desistir de ser uma coisa pra ser outra. Eu posso ser duas. Posso ser três, posso ser o que eu quiser. Já quis ser poeta, quando criança escrevia versos em papel de caderno e ficava lendo para os coleguinhas do condomínio, que deviam me achar louca. Nessa época eu achava que quem rima que é bom poeta. Comecei a escrever narrativas tão infantis quanto eu, iludida, criava personagens ricas, bonitas e que eram sempre muito amadas. Algum tempo depois descobri que histórias boas são aquelas difíceis de ler e digerir, mas que acabam por deixar sua marca para sempre. Decidi ser dançarina, a saga não durou muito, todavia nunca deixei de dançar. Nada me impede de balançar o corpo só de calcinha e chacoalhando o cabelo, imitando a Florence Welch. Tornei-me algo que nunca quis ser, mas descobri que também gosto daquilo que faço e que o trabalho pode ser prazeroso. Retornei aos exercícios físicos, mas não à dieta. Quinze, vinte minutos por dia, é meu limite. Em casa mesmo, ouvindo Lily Allen. Claro que há o receio de que essa energia que surgiu como um estalo se vá da mesma forma. Há uma chama viva em mim, sinto-me mais disposta. A meta é não a deixar se apagar. Já perdi muito tempo dormindo e desistindo de fazer coisas que eu gostaria de ter feito. Lido mais, estudado mais, escrito mais, dançado mais. Almejo agora ser alguém que ainda não sou por completo, e que também nunca pensei em ser, mas que ando gostando de me tornar, porém não sei quem será exatamente. Já tentei filosofias de boteco. Já tentei ser fitness. Psiquiatra, psicólogo, acupuntura. Ah, não pensem que sou tão ingênua. Há manias e defeitos que sempre irão existir, a ansiedade, por exemplo, está incrustada em mim. É meu espinho na carne, meu carma, o fardo que devo carregar. Ela é o gatilho para as outras desgraças contra as quais luto diariamente, o demônio que preciso aquietar, sedar dentro de mim, antes que me destrua. Agora, por exemplo, enquanto escrevo, ela surge sussurrando no meu ouvido que estou atrasada na execução da minha lista de tarefas do dia e, para aquietá-la, as unhas estão no sabugo e os pedaços roídos espalhados por toda mesa. Eu sei, são desafios que preciso superar. Tenho que aproveitar a chama, o estalo ou o clique que me acordou um dia desses. Qualquer dia eu conto, conto se continuo acesa, os dedos sangram ou as unhas crescem.

 

 

MAIA, Rebeca. Clique, estalo ou chama. 2019.

Anúncios

Cogito ergo sum

Acaba, acaba tormento. Sucumbe dor que lacera e rasga figuramente o peito. Nesse duelo contra a existência saio cada vez mais ferida e vencedora.

Aspiro o silêncio, a paz… Mas no meu interior rufam tambores intermitantemente. Na cabeça há o peso de uma vida sem pausas, de intensidade que desespera, de ansiedade que esmaga.

Ela rola sobre mim e me comprime, perco o ar e grito por socorro, mas ninguém ouve, estou só nesse abismo e tudo que consigo pensar é que quero o fim dessa luta. Ganhar ou perder, tanto faz. Só quero o fim da guerra. Essa mesma, a pior de todas, a que acontece dentro de nós.

Forma-se o abismo quando descobrimos que a projeção que fazemos das coisas nada mais é do que uma utopia e por isso falsária e inalcansável. Acredita-se nela para evitar-se o caos. Imagine um mundo em que todos os homens tivessem consciência de si? Abismo, caos, desespero, medo.

Medo de permanecer no escuro, medo de sair do escuro. Medo de não se saber sofrendo mais ou menos, já que o sofrer é inevitável.

Hoje é mais um dos dias em que eu acordo com os olhos inchados de tanto chorar e não me recordo do momento em que as lágrimas cessaram e caí no sono. Dói, dói muito e as palavras não dão conta de expressar esse tormento em que me encontro. As questões surgem e são essas, saltam da minha mente e procuram lugar onde se refugiar, espaço para dialogar e apaziguar…

Quem nunca teve embates contra a existência?

Quem nunca se fez perguntas em que não há respostas?

Quem nunca achou a felicidade inalcansável?

Quem nunca sonhou com uma realidade idealizada?

Quem nunca chorou por ter os caminhos desviados do percurso planejado?

Quem nunca sofreu por constatação?

Quem nunca agiu sem a devida reflexão?

Quem nunca insistiu no erro?

As questões ficam ecoando no quarto vazio e aos poucos tento digeri-las. Elas flutuam no ar e tento com esforço alcançá-las com minhas mãos fracas, já cansadas de tanto tentar.

Respiro fundo e me levanto devagar, um passo de cada vez, tac, tac, tac…

Lavo o rosto, miro-me no espelho e encaro meu reflexo, será que começo um novo dia? Apesar de tudo a resposta é positiva, afinal, a vida segue encontrando seus eixos e desajeitos.

MAIA, Rebeca. Cogito ergo sum. 2018.

exanimationes incidamus

O corpo físico responde à dor da alma, você adoece e já não sabe diferenciar os limites entre o físico e o psicossomático, os pensamentos não cessam, martelam dia e noite ininterruptamente e causam uma agonia infinita. A cefaléia latente já parece parte do seu sistema nervoso. E não sabemos se a mandíbula cerrada que a causa ou ela causa a mandíbula cerrada.

Nesse movimento sentimo-nos tão próximos de nosso inconsciente, ou, pelo menos, desconfiamos muito dele. Quanto mais desconfiamos mais nos desestabilizamos porque mais nos descobrimos e quanto mais nos descobrimos mais sabemos de nós e quanto mais sabemos de nós mais nos desmoronamos porque não gostamos do que vemos nem do prognóstico.

Solidão. Por mais que haja várias pessoas ao redor, sente-se profundamente só. Acredita que a vida não é importante e vê a morte como o único alívio para a dor… O cansaço é tão profundo que falta energia para tentar melhorar, conversar com alguém, pedir socorro. A sensação é de que o abismo fica cada vez mais profundo e é impossível escapar.

Ser livre dos demônios que impedem de controlar as emoções pode levar uma vida inteira e sempre dependerá unicamente de nós mesmos. Há fases em que nos tornamos nossos piores inimigos, agredimos nosso ego, mutilamos nossa confiança,  perdemos nosso ânimo. Recuperar tudo isso requer um processo cauteloso de autoconhecimento e que envolve abandonar as fantasias infantis e parar idealizar a vida e aceitá-la em toda sua crueza. E isso envolve ver e acreditar na beleza real, não a imaginada ou ‘encenada’ em fotografias de redes sociais. Essa é uma grande etapa para ser mais ‘feliz’ e ‘equilibrado’. Todavia não existe constância nessas duas palavras. E isso é natural, é fisiológico, é humano.

Quando a gente toma consciência disso, busca a ajuda necessária, aos poucos  vai deixando de achar que é uma vítima do mundo, do destino, das pessoas. Não é uma coisa simples, a gente fraqueja, sofre de novo, tem um dia melhor, outro pior, outro ameno, inventa coisas, acredita nelas, se martiriza. No entanto, essa tomada de decisão é um grande passo que não deve ser desprezado.

Anule o que te faz mal, o que te causa sofrimento. Mesmo que isso implique outro sofrimento passageiro. É melhor sofrer durante um período do que alimentar a dor, a ansiedade, a angústia durante uma vida inteira. Procure relacionar-se com pessoas positivas, que procuram manter o bom-humor, levantem seu astral, apontem suas qualidades. Porém, se você não se sente importante para alguém, acha que ninguém enxerga o seu valor, seja suficiente pra si mesmo!

MAIA, Rebeca. exanimationes incidamus. 2018.

me faz muito bem

A IMAGEM DAS PERNAS ENTRELAÇADAS

O toque suave dos seus dedos

na minha pele

suas pernas pesadas a me enlaçar noite adentro e

o seu ronco discreto no meu ouvido.

 

O beijo de despedida pela manhã

A porta  a se abrir quando você chega

Rir à toa com você

escutar tolices do dia e

trocar informações de jornal.

 

Saber que somos diferentes

iguais no necessário

emoção versus razão

empatia, orgulho

paixão e tesão.

 

MAIA, Rebeca. Me faz muito bem. 2018.